terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Não me abandone jamais





"baby, baby... never let me go"


Existem livros bons. Livros ruins. Livros ótimos, livros bem-escritos. Mal-escritos. Obras-primas. Livros famosos e livros "de polpa". Best-sellers e aqueles que só a família do escritor lê. Tem também aqueles que nem a família do escritor lê. Tem os fenômenos. E aqueles que a crítica descem o pau. Tem os livros que a gente empurra página por página goela abaixo, não vendo a hora de chegar no fim. E aqueles que a gente devora. Tem livros que mudam as pessoas e outros completamente esquecíveis.
E tem aqueles livros, raros livros, que parecem feitos pra gente.

Então não importa a opinião da crítica ou o quão tecnicamente aperfeiçoados eles são. Na verdade, não importa nada disso aí de cima. Tudo é irrelevante, a não ser aquela relação de cumplicidade que se desenvolve entre leitor e leitura durante as horas compartilhadas juntos.
Eu sei que é meio piegas falar assim, mas eu não conseguiria descrever de outro jeito Não me abandone jamais. Claro, essa é uma descrição muito pessoal. Talvez até demais. Mas quando esse tipo de laço se desenvolve com uma obra é impossível falar sobre ela como quem analisa de fora. Eu ousaria dizer que é até um desperdício querer analisar, por exemplo, a estrutura narrativa, o quão crível são os personagens, os pontos de virada e os truques estéticos. Às vezes acontece de uma história nos afetar além do racional ou da superfície emocional provocadora de lágrimas, ela nos atinge em algum lugar meio desconhecido e, de repente, é como se ela fosse parte de nós mesmos. E só dá vontade de ler, ler e ler, de imergir completamente pra dentro desse novo universo, de ser parte do livro. Dá vontade de ler rápido e chegar logo ao final e, ao mesmo tempo, dá vontade de que a história nunca realmente acabe.

Eu acho que é isso que os professores querem dizer quando mencionam "a magia da leitura". Ou não. Mas pelo menos, pra mim - que não sou professora - é isso que significa. Essa é a magia. Essa sensação de ter encontrado um refúgio que é só teu e, ao mesmo tempo, uma companhia cheia de personagens e de vida. Essa coisa de apoderar-se da história e de repente ela é a sua história favorita e ai de quem falar mal do livro, ou dizer que não gostou! Dói como se a pessoa tivesse ofendido a nós mesmos. "Sério que tu gostou desse livro? Eu achei uma porcaria!" é quase como um "Pelo amor de deus, Fulaninha. O que diabos tu fez na cara? Tá parecendo uma ogra assassina".

E foi isso que "Não me abandone jamais", depois de 18hs lendo sem parar, se tornou pra mim. Uma extensão, um pedacinho de mim mesma escrita em 344 páginas. Talvez, eu diria, um pedacinho muito melhor e mais lindo que qualquer outro. O meu melhor.

"Ruth, por falar nisso, foi apenas a terceira ou quarta doadora que pude escolher. Já havia uma cuidadora designada para ela, na época, e lembro-me que foi preciso uma certa dose de coragem de minha parte. Mas no fim dei um jeito, e assim que a vi de novo, naquele centro de recuperação de Dover, nossas diferenças - ainda que não tivessem exatamente sumido do mapa - não me pareceram nem de longe tão importantes quanto tudo o mais: o fato de termos crescido juntas em Hailsham, o sabermos e nos lembrarmos de coisas que ninguém mais sabia ou das quais ninguém mais se lembrava. Foi dessa época em diante, imagino, que comecei a buscar nos doadores pessoas conhecidas no passado e, sempre que possível, de Hailsham.
Houve épocas, no decorrer desses anos todos, em que tentei esquecer Hailsham e me convencer de que não seria bom ficar olhando tanto para trás. Porém num determinado momento simplesmente parei de resistir. E isso teve a ver com um doador em particular, de quem tomei conta certa feita, no meu terceiro ano como cuidadora; com a reação dele quando comentei que era de Hailsham. Ele tinha acabado de sair da terceira doação, que não dera muito certo, e já devia saber que não iria se safar. Embora mal conseguisse respirar, me olhou e disse: "Hailsham. Aposto como era um lugar lindo". Na manhã seguinte, batendo um papinho na tentativa de distraí-lo daquilo tudo, perguntei de onde ele era; o doador mencionou algum lugar em Dorset e sua expressão, por baixo da pele manchada, passou a um tipo bem diferente de esgar. Foi então que caí em mim e percebi a vontade imensa que ele tinha de não se lembrar de nada. Tudo o que ele queria era que eu falasse de Hailsham.
Portanto, durante os cinco ou seis dias que se seguiram, contei-lhe tudo o que ele quis saber, enquanto, do leito, ele me ouvia fascinado, com um leve sorriso nos lábios. Falei dos nossos guardiões, das caixas com as coleções que eram guardadas debaixo da cama, do futebol, das partidas de rounders, do caminho estreito que contornava todos os cantos e recantos externos do casarão, do lago com os marrecos, da comida, da vista que tínhamos das janelas da Sala de Arte pela manhã, com os campos cobertos de bruma. Às vezes ele me fazia repetir vezes sem conta a mesma coisa; algo que eu mencionara no dia anterior voltava a ser alvo de perguntas, como se ele nunca tivesse escutado uma única palavra sobre o assunto. "Vocês tinham um pavilhão de esportes?" "Quem era seu guardião predileto?" De início, pensei que fosse apenas efeito dos remédios, mas depois me dei conta de que ele estava bem lúcido. Mais do que ouvir falar de Hailsham, ele queria se lembrar de Hailsham como se Hailsham tivesse pertencido a sua própria infância. Sabia que estava perto de concluir, de modo que me fazia descrever as coisas de forma que elas penetrassem de fato em sua lembrança. A intenção dele, talvez- durante as noites insones devido aos remédios, à dor e à exaustão -, era tornar indistintos os contornos que separavam as minhas memórias das suas. Só então compreendi, compreendi de fato, quanta sorte tivéramos - Tommy, Ruth, eu, na verdade todos nós."

título: Não me abandone jamais [Never let me go]
escritor: Kazuo Ishiguro
tradução: Beth Vieira
editora: Companhia das Letras
páginas: 344
ano: 2005

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TOP 5 de 2010

Levemente atrasados aqui, admito, mas vamlá. Um breve TOP 5 dos filmes de 2010. Ou não. Compreendam isso mais como uma "rememoração" dos poucos filmes que eu assisti ano passado - mas que, felizmente, foram mais do que em 2009.



os meus melhores 5 filmes vistos no cinema em 2010
1º: A Origem [Inception], de Cristopher Nolan
porque apesar de qualquer probleminha de roteiro ou das más línguas dizendo que é só mais uma cópia de Matrix, eu saí da sala de cinema com apenas um pensamento: esse é o filme mais foda que eu já vi. e essa sensação - mesmo que momentânea - vale mais que qualquer perfeição técnica e artística.

2º: Avatar, de James Cameron
ok, eu concordo: o certo seria ele estar na lista de 2009. mas eu só vi em 2010, anyway. e foi um dos filmes mais mágicos e que mais mexeu comigo - a constar, por motivos pessoais (como tudo nesse blog, pra quem ainda não percebeu).

3º: Toy Story 3, de Lee Unkrich
parte final do filme que eu acredito tenha sido o primeiro que eu vi. de todos. e é lindo demais. não podia ficar de fora.

4º: Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo
foi o filme mais 2009 que eu vi em 2010. :`)

 A Rede Social [The Social Network], de David Fincher
"o filme sobre o facebook". divertido, dinâmico e levemente genial.
obs: não confundir David FINCHER com David LYNCH,ok. 

menção honrosa
- A Fita Branca [Das Weisse Band], de Michael Haneke
lindo e perturbador.

os 5 queridinhos nacionais
- Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo
sim, de novo. hehe.

- Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho
um dos filmes mais belos que eu já vi. se tratando em cinema nacional ou não.

- Morro do Céu, de Gustavo Spolidoro
filme divertido, encantador, bonito e com adolescentes. adoro :)

- Elvis & Madona, de Marcelo Laffitte
comédia romântica brasileira divertida, encantadora e bonita. também adoro :)

- Reflexões de um Liquidificador, de André Klotzel
Selton Mello é um liquidificador assassino. sem mais.

menção honrosa
- Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes
não é um filme sobre o qual eu poderia escrever algo. palavras não são suficientes. tem de se ver. e enxergar.

os meus melhores 5 filmes não vistos no cinema em 2010
1º: Na Natureza Selvagem [Into the Wild], de Sean Penn
"I will always be better than before"

2º: Encontro Marcado [Meet Joe Black], de Martin Brest
histórias de amor assim sempre me conquistam, não adianta.

3º: Dogville, de Lars Von Trier
sabe quando um filme te atinge tanto que dói no estômago? pois é.

4º: Coraline e o Mundo Secreto [Coraline], de Henry Selick
acho que é o filme mais lindo que eu vi em 2010.

5º: Elefante [Elephant], de Gus Van Saint
um diretor que eu fiquei muito feliz de ter descoberto esse ano.

as 5 piores enrascadas de 2010
1º: A Sétima Alma [My Soul to Take], de Wes Craven
eu sei que eu prometi pros envolvidos manter isso em sigilo, mas puta que pariu. filme bosta. e, como se não bastasse, eu vi no cinema. inteiro. por mais de uma hora e meia. é. /vergonha.

2º: Em Teu Nome, de Paulo Nascimento
filme ruim é filme ruim. ponto.

3º: Ex-Isto, de Cao Guimarães
foi o dinheiro mais mal gasto ever. eu ganharia muito mais se tivesse gastado todo ele no mc donald's. fato.

4º: A Centopeia Humana [The Human Centipede: First Sequence], de Tom Six
eu não precisava disso na minha vida.

5º: Anticristo [Antichrist], de Lars Von Trier
desculpa, sou intelectualmente inferior, não li Nietzsche e, com certeza, não entendi o filme. mas tenho certeza que, pra quem entendeu, ele deve ser genial e uma verdadeira obra de arte. eu, particularmente, não precisava disso na minha vida [2]

domingo, 2 de janeiro de 2011

Querido John



Dear John foi lançado em abril de 2010 - ou seja, há quase um ano. Vocês sabem aquele tipo de filme que a gente simplesmente se apaixona só de saber o título? De ler a sinopse? Ou de ver o trailer? E então cria todo o tipo de expectativa em cima dele? Pois é, Dear John foi exatamente esse tipo de filme pra mim em abril do ano passado (feliz 2011, folks). Fiquei sabendo a premissa dele no sempre ótimo Miolão e, admito, foi "love at first sight". Simples assim: se tornou meu filme favorito antes mesmo de ter sido lançado. E eu simplesmente ainda não sei por que só fui assisti-lo pela primeira vez hoje, dia 2 de janeiro de 2011, mais de meio ano depois de ter "caído" pela história de Savannah e John.
Foi um daqueles descaminhos que acontecem: o filme entra em cartaz, você está morrendo de vontade de ir ver, acaba bobeando e quando percebe - puf! - já saiu dos cinemas e perdeu-se a vez. Aí saiu em DVD, saiu na internet, mas eu nem vi. Passou. Até que eu comprei o livro do Nicholas Sparks e comecei a ler e terminei de ler menos de cinco dias depois - coisa rara pra mim em 2010.
Falando a verdade, a história de Dear John (o livro) não é, nem de longe, a melhor e mais bem escrita história do universo literário. Ela é simples, com um vocabulário cotidiano e nem um pouco rebuscado, com frases diretas e fáceis - tão fáceis que eu, uma mera turista do inglês, consegui ler e compreender ele muito bem no seu idioma original. A história de Sparks é assim: fácil. E talvez esse seja seu maior encanto. 
Acompanhamos o relato de John Tyree página por página, tudo numa primeira pessoa verdadeira e sem receios de julgar a si mesmo e aos outros personagens. Nos apaixonamos, junto com ele, por uma garota do interior, que vai à igreja nos domingos e não fala palavrão: Savannah Curtis. Sentimos raiva, alegria e tristeza. Então, antes mesmo que tomemos consciência, estamos devorando cada linha, querendo pular detalhes de descrição, chegar logo ao próximo encontro, à próxima ação, à próxima carta. E uma história com pontos de virada previsíveis e personagens que tinha tudo para cair no melodrama água-com-açúcar acaba nos (me) pegando de jeito e antes que dê pra evitar estamos sentados no meio da praia com os olhos cheios de lágrima.
Aliás, esqueci de comentar a premissa  (logo, ninguém deve ter entendido nada do que eu escrevi até esse ponto,masokay). É mais ou menos assim: John é um soldado norte-americano que em um dos seus momentos de "folga" - duas semanas em casa - conhece Savannah, uma garota loira, do interior, que faz trabalho voluntário e estuda para ser médica de crianças com autismo. E eu não vou falar mais do que isso, se não estragaria a história aos pouquinhos. Aqui está outro ponto tão encantador de Dear John: o modo como vamos conhecendo John e Savannah aos pouquinhos, enquanto eles mesmos se conhecem. 
Nicholas Sparks é o cara cujos livros nas prateleiras das livrarias ficam do lado dos livros da Nora Roberts e que já escreveu várias histórias românticas, algumas, inclusive, deram origem a filmes aclamados pelo público desse... "gênero" (na falta de palavra melhor). São eles o bem fraquinho e com péssimas atuações A Walk to Remember  (Um Amor para Recordar) e o que todos dizem maravilhoso, mas que eu vergonhosamente ainda não assisti The Notebook (Diário de uma Paixão).
Então, o que aconteceu foi que eu passei de um filme que eu queria muito, muito mesmo ver, para um livro que eu queria muito ler e, depois de ter lido, para um filme que eu PRECISAVA ver. Só que eu estava na praia. Sem conexão para download. No feriado de ano-novo. Sem vídeo-locadora. E sem loja de DVDs. Aí eu fiz uma coisa horrível e espero que nenhum oficial de justiça acompanhe meu blog: eu, quase-futura-cineasta, comprei um DVD pirata. Que NÃO FUNCIONOU NO DVD. Sério, foi um dos momentos mais frustrantes de 2010. Porque, sabe, eu REALMENTE queria ver aquele filme. Aí eu fui lá reclamar para minha vendedora: "oi, tia. tudo bom? a senhora me vendeu um dvd que não funciona". E troquei por outra cópia. Que... adivinhem? Claro, também não funcionou. Aí eu joguei o disco na lixeira e fui beber espumante. Fim :)
A primeira coisa que fiz hoje quando cheguei em Porto Alegre foi correr pro shopping, esperar a livraria abrir e gastar meu dinheiro comprando o DVD - dessa vez original - do filme. Porque eu já sabia que ia ser um dos meus filmes favoritos, daqueles que eu gostaria de ver de novo e de novo.

Vamos a mais complicada parte de avaliar um filme que é baseado num livro. Eu acho chato tocar nesse assunto, bem como inevitável. Portanto, vamos ser diretos: um livro é um livro, um filme é um filme. Qualquer um que anseia encontrar nas telas exatamente a mesma emoção e "imagens" que encontrou no livro está sendo um babaca. Vamos ao que de fato interessa: Dear John não é um grande filme - do mesmo modo como não é um grande livro - mas é simples, fácil e verdadeiro. E, por ser assim e por contar uma história de amor linda que gira em torno de um dos meus temas prediletos (ver Complexo de Penélope), eu não consegui escapar de me sentir encantada e presa pelo romance de John e Savannah.


a partir daqui spoilers - só recomendo para quem já viu ou já leu.
Lasse e Linden (o diretor e o roteirista) fizeram um trabalho ótimo em termos de adaptação. Eu adoro quando alguém pega a essência de uma história e simplesmente re-escreve ela, de um jeito que caiba aonde tem que caber. Alguns personagens são omitidos do livro de Sparks - por exemplo, a ex-namorada de John, a vizinha, o melhor amigo. Outros são modificados - Tim e seu "filho" Alan, por exemplo. E, voilà, a história já é outra. As motivações, em certos pontos, são outras. Mas a essência se mantém: a questão da paixão e do quão forte ela pode ser, o que é realmente amar alguém, o relacionamento entre pai e filho, a importância da amizade, do companheirismo, do orgulho e da vergonha dentro de um ambiente de trabalho em equipe. Esses são alguns pontos que estão no esqueleto da história. O resto é o recheio e o tempero que, felizmente, mudam na hora de transformar essa história em filme.
Daquilo que faltou - e acredito quase sempre falta na hora de adaptar livros - foi tempo. Acho que é inevitável: como eu mesma sempre repito é fisicamente impossível comprimir 300 páginas em uma hora e meia de filme. Ou em duas horas. Ou em duas horas e meia. Sempre vai faltar tempo. Ou ritmo (o que, no fim das contas, dá na mesma). Faltou tempo pra aprofundar mais as relações paralelas, para entender John e o pai dele, para entender Savannah e Alan e Tim. Mas aí, eu diria, se isso tivesse acontecido no filme, não seria mais aquela história de amor à la Odisseia, e a Savannah Penélope e o John Ulisses se perderiam em meio a conflitos e sentimentos que, bem ou mal, cabem muito melhor nas palavras e nas 300 páginas do que em duas horas dispersas.
-- fim do spoiler --

O filme ficou lindo. Ficou fechado - como eu gosto que os filmes sejam. A trama é circular e tudo contribui - cada cena, cada fala, cada personagem - para contar uma história maior, que gira em harmonia e que, passando por cima de qualquer imperfeição técnica ou de enredo, consegue ser verdadeira e te fazer sentir. O que, visto a escassez cada vez maior de filmes que nos fazem sentir alguma coisa, eu acho extremamente digno. (E para os mais resistentes aos romances, eu tenho um amigo que tem uma regra: ele nunca assiste a um filme que tenha "amor" no título. Bom, enxerguem aí uma oportunidade, folks).


O FILME
título original: Dear John
diretor: Lasse Hallström    
ano: 2010
país: EUA
roteiro de: Jamie Linden
etc: baseado no romance Dear John, de Nicholas Sparks.


O LIVRO
título: Dear John
escritor: Nicholas Sparks
editora: Hachette Book Group
páginas: 335
ano: 2006

domingo, 28 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1

(Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1, de David Yates)



Harry Potter (e aqui me refiro a todos os 7 filmes) não é exatamente aquilo que os críticos cultos e que entendem de cinema chamariam de "um bom filme". Nem os livros, "bons livros". E, como todo mundo sabe, a grande massa humana do universo na maioria das vezes não dá a mínima bola pros críticos cultos e continua gerando pra indústria cinematográfica bilhões de dólares. O que é simplesmente GENIAL.
A história criada por Rowling há mais de dez anos conquistou toda uma geração de novos leitores que, com seus 11 e 12 anos (ou 20, ou 30...) descobriram um mundo novo, cheio de magia, de aventura e de personagens como eles. Ou melhor, como eu. E o que realmente importa aqui não é criticar a qualidade do produto em termos técnicos e de linguagem cinematográfica, mas sim admitir que, poxa, uma história que teve tanto significado na minha pré-adolescência e me fez sentir tanta coisa não pode ser analisada como qualquer outra. Ela está num patamar superior, o patamar da emoção, da minha memória pessoal. Simplesmente por existir ela já se torna melhor que as outras. "It's only natural".

A tarefa de levar pra tela de cinema os livros mágicos de J.K.Rowling passou pelas mãos de vários diretores ao longo dessa década. Chris Columbus, Alfonso Cuarón, Mike Newell e, por fim, David Yates.
Columbus dirigiu os filmes que, até então, vinham sendo os meus favoritos da série. A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta, os primeiros, os mais infantis, os mais fiéis, enfim... foi o início - e, convenhamos, foi um ótimo início. Com O Prisioneiro de Azkaban a história já começou a mudar um pouco de cara. No livro começavam a surgir subtramas um pouco mais complexas. Esse terceiro, meu livro favorito, diga-se de passagem, foi o que eu tive mais expectativa pra ver no cinema. E todo mundo sabe que quando a gente cria muuuita expectativa pra alguma coisa o resultado nunca é suficientemente bom. Hoje, analisando com olhos de quem vê mais do que sente, é certo que o trabalho de Cuarón foi diferente, original e muito bem feito. A partir de O Cálice de Fogo é que começou a perder a graça. O filme demorou muito pra sair, o quinto livro demorou muito pra sair, e quando chegaram até nós eu já não tinha toda aquela vontade. Quer dizer, a gente cresce. Com A Ordem da Fênix e com O Enigma do Príncipe, a mesma situação. A história começava a ficar muito mais densa e impossível de ser comprimida em duas horas e meia de filme. Muita informação, muito detalhe, muita história que ainda não tinha sendo contada.  E, por isso, muita coisa ficou de fora. E o que ficou de dentro ficou embolado, atropelado, num ritmo ruim.
Por isso que, quando fiquei sabendo do lançamento da primeira parte de As Relíquias da Morte eu já não esperava muita coisa. E aqui a recíproca é verdadeira: quando a gente não cria quase nenhuma expectativa, tudo fica um pouco melhor. E a primeira parte do último filme ficou muito, mas muito melhor.
Tudo acontece no tempo certo. Os planos gerais, com algumas exceções, são lindos. As luzes e as cores são sombrias na medida certa. Um roteirista com um pouco mais de "tempo-espaço" pra adaptar uma história, cria em cima dela - e Steve Kloves criou coisas lindas.
O sétimo filme parece misturar todos os ingredientes na medida certa: o humor, o medo, o suspense, a diversão, o romance... tudo está ali, e está na quantidade e no lugar certo. Às vezes, algumas licenças criativas que dão vida aos meus momentos favoritos do filme - como a cena da dança, ou a sequência do conto dos Três Irmãos. Outras vezes, simplesmente a adaptação "litetal" das palavras de Rowling, como a cena do elfo Dobby, na praia.

O que eu mais adoro é esse incrível poder que as histórias carregam, a capacidade de te fazer sentir e se emocionar como se estivesse dentro daquele universo. É clichê, mas né. É lindo do mesmo jeito. E ultimamente tem sido tão difícil ver algo que realmente te emocione, que te faça sorrir naturalmente, que aperte a garganta ou dê o nó na boca do estômago, que quando um filme faz isso ele já merece elogios. Te proporcionar tudo isso e, ainda, te fazer senitr como se você tivesse 12 anos e quisesse mais do que tudo viver dentro daquele universo, sério: não existe, em todo o mundo, estética ou linguagem que possa criticar racionalmente isso.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

SALT

de Phillip Noyce

Angelina Jolie, tãolindaquantosempre, vestindo somente uma lingerie de rendinha, toda ensanguentada, jogada em uma sala escura e sendo espancada por norte-coreanos. Essa é a primeira cena de Salt. E, vamlá, sem hipocrisias, só isso já é motivo mais do que suficiente pra ir até a telona. Fantasias sexuais à parte, "Salt" é mais um filme de ação.
Com uma quantidade de produtores quase maior que o elenco -cofcof- entre eles alguns que assinaram filmes como "Transformers", Transformes 2, Transformes: a vingança dos rejeitados, Transformers,osrobôscontraatacam e todo o resto e com o roteirista de "Ultravioleta"(um filme que eu não quero ver), não poderíamos esperar muito mais do que um filme de ação, bem comercial, bem Hollywood séc.XXI. A sinopse: SALT (Jolie, semprelinda) é uma agente da CIA fugindo de muitos outros agentes da CIA e de muitos outros americanos que a acusam de ser uma infiltrada Russa que quer explodir o mundo.
Angelina Jolie faz tudo aquilo que já tinha feito em Tomb Raider, dessa vez usando uma franjinha bem cheerleader. Além disso, ela corre, pula, chuta, atira, mata, usaváriasmetralhadaoras, anda de moto, pula em caminhões em movimento, anda de metrô, corre, pula, atira, mata, explode, chuta, soca, faz uns passinhos de Le Parkour, chuta, soca, imobilizada, atira, explode, explode, chuta, soca... Tudo isso sendo perseguida por centenas de homens engravatados. Ah, e, óbvio, usando várias roupas estilosas e com cara de "oi,eusouumaespiã".
Nada disso, contudo, afetaofato de que ela é maravilhosa. Angelina Jolie ganhou meu coração ano passado com o drama "A Troca" e agora tudo que eu vejo com ela é um pouco mais lindo.
Repetindo pra deixar bem claro: "Salt" é um filme de ação. Quem não gosta desse gênero, nem adianta tentar absorver alguma coisa. Mas pra quem gosta é um prato cheio. Tem tudo aquilo que um ótimo filme de ação precisa ter (além das acrobacias que eu já citei ali em cima). "Salt" tem uma linda protagonista, uma montagem fácil e óbvia, um roteiro superficial e uma trilha sonora com todos os efeitos sonoros estrondosos prontos para acompanharem as explosões de carro - que são muitas. Poderia, confesso, ser meu mais novo filme preferido, desbancando o TOP1 desde 2008 "Transformers". Mas aí entra uma frase que meu grande amigo Rodrigo Peroni falou esses dias, a respeito de outro filme: "ele até seria 3 pipocas, mas aaaai, aquele final!". É, minhagente, aaaaai >.< o final. PQP. Digamos que ele é bem... surpreendente. Digamos assim, SURPREENDENTE DEMAIS. Digamos que Hollywood e toda sua indústria, no desespero de se manter em meio a crise cinematográfica pós-Avatar, não consegue mais sustentar nem ao menos o que poderia vir a ser um bom filme de ação.
E assim, nossos amigos norte-americanos torturam seus espectadores espancando eles e jogando-os para fora da sala de cinema. Ao invés de deixá-los sair comentando sobre as cenas estrondooosas que acabaram de ver, nossa indústria insiste em nos arrancar da frente da telona decepcionados, com aquela sensação de termos sido traídos pelo filme. Não fica nem a vontade de esperar 1 ano por "Salt  2 - A Vingança dos Comunistas". Fica mesmo a vontade de chegar logo em casa e tomar sopa. Uma pena =/